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terça-feira, 3 de julho de 2012

E afinal porque é que lutamos?

Eu cresci a ouvir histórias acerca dos tempos da ditadura, acerca daqueles que se sacrificaram para que hoje possamos viver em liberdade, a celebrar o 25 de Abril e o 1º de Maio. Eu cresci a ouvir os meus pais a exaltarem os direitos que nessa altura foram conquistados e que lhes possibilitaram ter a vida que tem hoje. Eu cresci com a crença de que eu era livre de tomar opções acerca da minha própria vida. Eu cresci com a crença que se eu estudasse seria não apenas alguém na vida, mas o “alguém” que eu escolhera ser. Eu cresci com a crença de que se eu acreditasse e lutasse poderia efectivamente contribuir para uma sociedade mais justa.

Hoje tenho 29 anos e desde há algum tempo que me tenho vindo a confrontar com a desilusão, com a constatação de que tudo isso não passava de um sonho pueril. Primeiro tornei-me céptica, depois tornei-me cínica. Deixei de acreditar e perguntei-me porquê. Concluí, então, que a questão não era: «porque não acredito?» mas sim «acreditar em quê?».

Conformei-me com o facto de que vivíamos na tal “era pós-ideológica” de que hoje tanto se fala e sucumbi à alienação.

No dia 12 de Março deste ano aterrei em Portugal, depois de uma estadia de nove meses nos Estados Unidos, e deparei-me com uma grande manifestação. Apercebi-me do descontentamento das massas, da evidência de que estávamos todos num estado de ruptura. Mas ruptura de quê? E o que surgiria dessa ruptura? Falava-se de uma Europa em decadência, de uma crise baseada em créditos e débitos virtuais, de especulação financeira, da bancarrota, mas tudo aquilo que eu continuava a ver era uma população apática, que saiu de casa um dia para manifestar o seu descontentamento mas que não tinha respostas ou alternativas, como um doente que não sabe muito bem quanto tempo terá de vida mas ao qual ainda não foi diagnosticada uma doença concreta e que, portanto, não sabe a que tratamento recorrer.

No espaço alguns meses tudo se alterou. Hoje somos testemunhas, participantes ou não, de grandes manifestações à escala mundial, dos movimentos de ocupação das ruas, da defesa de uma democracia global e participativa em detrimento das democracias nacionais e representativas. E daí surge a questão? Será que durante esse espaço de tempo tudo se clarificou? Será que para além do descontentamento generalizado nós já sabemos aquilo por que estamos a lutar?

Na busca por uma resposta a esta questão, tenho vindo a confrontar-me com toda uma série de artigos, imagens, reportagens acerca deste fenómeno. Um dos factos que considerei mais significativos foi a rapidez do alastramento do movimento de ocupação das ruas, e o seu consequente impacto mediático, nos Estados Unidos da América em relação aos movimentos de contestação europeus. Numa rápida análise a alguns dos cartazes presentes em manifestações americanas e europeias questionei-me se um dos factores chave para essa discrepância residirá na compreensão do problema com o qual a população de ambos se confronta: «I will never pay off MY student loans» ou «I will never pay off MY debt» são frases presentes numa das imensas aglomerações humanas do movimento «Occupy Wall Street» e contrastam com palavras de ordem como «Esta Dívida não é Nossa» ou «Parlamento. Este não é o Nosso orçamento», presentes na pouco mediática concentração de protesto à aprovação do orçamento de Estado no passado dia 10 de Novembro.

Ora, segundo a minha perspectiva, a divergência de pronomes pessoais utilizados nos cartazes de ambas as manifestações são significativos das motivações das multidões presentes nas mesmas.

A crença na responsabilização individual enforma a cultura americana. O Estado não assume qualquer (ou muito pouca) responsabilidade social. Daí que famílias inteiras se encontrem endividadas devido a necessidade de tratamento hospitalar e que muitos estudantes se vejam em situação de pobreza extrema devido aos créditos contraídos para pagar cursos universitários. Assim, a sua luta simplifica-se uma vez que sabem exactamente quem é o seu opositor: a Banca.

Daí que cada um dos manifestantes esteja perante uma luta individual, entre si, o oprimido e a banca, o opressor. A união dos mesmos surge, assim, de um problema individual que é comum.

Na Europa o problema da compreensão da crise em que nos encontramos complexifica-se pela inexistência de um opressor concreto, devido à existência do Estado e da União Europeia enquanto entidades mediadoras desta relação. A relação binária: povo – banca, transforma-se em relação Povo – Estado/União Europeia – Banca. Assim, surge a dúvida: quem é afinal o opressor? É o Estado? É a Banca? É a União Europeia?

Responder a cada uma destas questões é uma tarefa difícil, exige um grande esforço dificilmente tolerado pela preguiça de quem fala em nome de um colectivo e não em nome estritamente individual. Para o resolvermos temos que nos consciencializar que hoje vivemos num mundo global e com uma complexidade que ultrapassa em excesso a esfera do concreto e do palpável. Já não lutamos pela liberdade como no tempo dos nossos pais… ou pelo menos esse tipo de liberdade. Lutamos por outra coisa e é isso que ainda temos que descobrir e definir…

Existe, porém, algo de muito concreto: as tão referidas medidas de austeridade conduzem-nos claramente para o modelo baseado na responsabilização exclusivamente individual, contra o qual os manifestantes americanos se encontram neste momento a revoltar. Será que vamos ter que esperar para sofrer na pele as consequências da relação binária povo-banca?

Uma coisa é certa: nessa altura a relação simplifica-se e aí sairemos todos para a rua. Deixaremos de dizer «esta dívida NÃO é nossa» e seremos obrigados a dizer «Não vou pagar a MINHA dívida»

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