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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Tiro no liro, tiro no ló


Em 1985 José Mário Branco edita o tema Tiro no liro, dedicado a Otelo Saraiva de Carvalho, onde ouvem-se os versos «Quem dá o tiro no liro vai pró chilindró /Quem dá o tiro no ló anda de popó». Lembrei-me desta canção depois de ter escutado as palavras da diretora do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), Cândida Almeida, proferidas este sábado na Universidade de Verão do PSD, segundo as quais «os nossos políticos não são corruptos». Em 1984, Cândida Almeida estava colocada no Tribunal de Instrução Criminal e teve a seu cargo o processo das FP-25 de Abril, que conduziria à condenação do Capitão de Abril por crime de associação terrorista. Lembrei-me também que, mais recentemente, a magistrada do Ministério Público teve ação de revelo no processo Freeport ao liderar a investigação que terminou na absolvição dos arguidos levados a julgamento, uma decisão que deixou na penumbra o papel desempenhado por José Sócrates no licenciamento da obra. De resto, a sombra do então ministro do Ambiente pairou sobre a sala de audiências tendo o seu nome sido referido em vários testemunhos, a ponto de o Tribunal do Barreiro ter solicitado ao Ministério Público que fossem investigados indícios de corrupção naquele organismo governamental. Uma tomada de posição que pôs em causa o trabalho desenvolvido pela magistrada do DCIAP e que, ao que parece, muito a terá irritado. Por tudo isto, as declarações deste fim-de-semana espantam pelo seu tom categórico, surgindo aos ouvidos de quem as ouve como uma absolvição a priori de toda a classe política. No fundo, esta frase foi dita por alguém que personifica as contradições do nosso sistema judicial. Em Portugal parece ser mais fácil levar a julgamento assaltantes de galinheiros ou acusados de crimes de sangue do que políticos envolvidos em crimes de colarinho branco, uma demonstração do carácter de classe – burguês, para sermos mais claros – da justiça portuguesa. Uma justiça que se diz cega mas onde os piores cegos são aqueles que não querem ver. 


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